quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Paris - Dias 37, 38 e 39

Continuo a manter a minha máxima: se não temos nada para contar, mais vale não bloggar! Isto para justificar a intermitência destes posts.
Estou a ler as "Cartas de Paris", do Eca (ainda não consegui encontrar as cedilhas...). E tenho que vos dizer que para ele era fácil escrever grandes cartas, porque viveu em Paris numa época de grandes acontecimentos. Logo nas primeiras páginas, temos duelos sangrentos, revolucionários a voltar do exílio, congregacões religiosas a serem expulsas da cidade! Assim também eu! (Mentira. O Eca é único! E eu sou fã.)
A mim resta-me o Sr. Sarkozy de dedo em riste a ameacar os funcionários públicos... Pouca novidade, para quem tem um Sr. Sócrates...
Mas não era sobre nada disto que eu queria escrever hoje. Hoje quero escrever sobre duas parisienses: uma, sem-abrigo; a outra, pedinte. Cruzo-me com elas todas as manhãs. A primeira dorme no sítio mais improvável possível: junto a um semáforo, num cruzamento muito movimentado. Seria difícil encontrar um local mais exposto ao frio, à chuva, ao barulho, às pessoas e automóveis que passam. Porque é que ela o escolhe, não sei. Mas, ela lá está a dormir profundamente todas as manhãs...
A segunda pede junto a uma saída do Metro. Está sentada num murete, muito direita, muito limpa, muito distinta. Tem um cartão na mão, que ainda não consegui ler. Faz questão de cumprimentar todas as pessoas que passam e desejar-lhes um bom dia de trabalho. E é tão convicta, tem um sorriso tão aberto, que é impossível ficar indiferente.

1 comentário:

Anónimo disse...

De facto há coisas que ultrapassam qualquer fronteira. Não há barreiras para a fome, para a miséria e para a decadência e isso encontra-se quer aqui na terrinha quer na cidade da luz. Mas, independentemente do local, há algo que faz a diferença: a forma como as vemos ou fingimos não ver. Falo em "ver", e não pura e simplesmente em olhar. Das milhares de pessoas que passam por essas parisientes todos os dias muitos desviam o olhar, outros olham mas não "vêem", poucos dedicam alguma atenção. E apenas uma, ou então mesmo muito poucos, serão capazes de dedicar um tempo de reflexão a essa imagem quotidiana. Haja esperança: ainda nem todos foram atingidos pela cegueira social.